Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Sexta-feira, Abril 30, 2004
PALOMA NEGRA
Interpretação:
Chavela Vargas
Letra:
José Alfredo Jiménez
Ya me canso de llorar y no amanece
Yo no se si maldecirte o por ti rezar,
Tengo miedo de buscarte y encontrarte
Donde me aseguran mis amigos que te vas.
Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
Pa'arrancarme ya los clavos de mi penar,
Pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
Y mi cariño hoy con locura te vuelven a buscar.
Ya agarraste por tu cuenta la parranda,
Paloma negra, paloma negra donde estaras
Ya no juegues con mi honra parrandera, si
Tus caricias deben ser mias de nadie mas.
Aunque te amo con locura ya no vuelvas,
Paloma negra tu eres la causa de mi sufrir,
Quiero ser libre, vivir mi vida con quien
Yo quiera, Dios dame fuerzas que me
Estoy muriendo por irla a buscar.
Ya agarraste por tu cuenta la parranda . . . .
Chavela Vargas (1919, - )
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Domingo, Abril 25, 2004
POETAS DO ABSURDO
à Taciano, por uma inspiração indireta
Um espelho, não uma imagem apenas, mas uma ilusão tão real que fere e sangra. Pós de nossos sonhos, num tormento derradeiro e inevitável. Uma criança, ou um boneco macabro feito em pedaços?! Talvez nós mesmos, nossa felicidade inocente e nossos pés roubados do chão. Como uma canção de mímico. Irônica comédia sem atos ou risos. Palavras encontradas no lixo, nos escombros, nas ruas de lava e na obscuridade do homem. Um pouco de tudo, imerso numa rima sutil e delicada, como uma ciranda de guitarras e cigarras sem as cabeças. Um pouco de tudo e um nada angustiante, como uma taça de cicuta. Viva os poetas do absurdo, e viva o absurdo de ser poeta de farrapos! Uma felicidade de máscaras, ou uma tristeza cubista. Gosto do gosto que atravessa a garganta, gosto da energia de uma explosão nuclear, a arrancar meus membros...
Talvez seja essa uma nova miragem, gravarei, mas enquanto isso, é de sua posse esse casarão cheio de almas refletidas de seu drinque de cólera. Assim penso, ou penso que penso! Um sorriso de dentes nicotinados e músculos enfartados. Há sombras e fantasmas a rodear nossas cabeças calvas e repletas de feridas expostas. Os pombos, os corvos, os abutres e os vermes se devorando. Tão asfixiante quanto um quarto repleto de relíquias. Sudários apodrecidos de fé profana. Cálices de silêncio afogado nas masmorras. Todos os sinos ressoando, a suprir a necessidade abstrata de guia. Meu corpo fechado num terno de vidro. Casulo fundido ao tecido epitelial. Os olhos soltados das órbitas, a vagar nas planícies de cal virgem. Uma praia repleta de corpos humanos. Da forma mesma de suas idéias. Uma chuva rarefeita, e caranguejos, e pinaúnas, e águas-vivas. O verde sêmen do oceano primitivo e borbulhante, refletindo as tormentas do céu e a inacessibilidade do cosmos. Sua? Apenas a ilusão desvanecida. Minha, a retina lacrimosa fotofobica e cataléptica. Sonho... Sonho como os anjos da crônica escrita. Além das cinzas da árvore... Além!
(L. F. Calaça | 24/04/2004)
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Sábado, Abril 24, 2004
PSEUDOPODOS
"(...) fui tirando calmamente meus sapatos e minhas meias,
tomando os pés nas mãos e sentindo-os gostosamente úmidos,
como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante (...)"
UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar
Porque assim tem de ser! As palavras se perdem junto às ilusões. O poeta morre dentro de mim, num aborto espontâneo. Ninguém vê ou sente, pois não há gemido ou sangue. Mas e esta obsessão? Expliquem-me a complexidade da vida, que não tem resposta. Nem mesmo à loucura do amar. Falar de amor é banal. Banal é esta insistência em existir, amando. Assim se criam os pedófilos, com ilusões de infância. Assim diria Proust? Não o conheço, nem humana criatura conhecer-me-á. Escondido atrás das cortinas, canto uma melodia sem cores. Odeio a palavra ninguém. Odeio todas as palavras que se tornam repetitivas, perdendo... Não há lugar para ilusões entre as palavras. Só aprisionamento de almas penadas. A absolvição (!), somente com um beijo, inconsciente e envenenado. Jamais! As manchas de sangue foram apagadas. E só resta tinta azul para pincelar a beleza de um jardim de inverno. Uma miragem (!), como Ofélia no paraíso. Não existe paraíso. Vivo a negar a todos e a mim mesmo. Para que as afirmativas, se desconstruímos sentimentos com um olhar? Um único olhar a trair e assassinar o poeta romântico. Por isso pereço entre os escombros que me nutrem a dor de pensar. As lembranças são inúteis. Não há redenção aos vivos que pedem esmolas ou suplicam carícias. Humilhação! Eternamente frios e metódicos com suas gravatas, óculos e dentadura. Uma libélula imóvel, caída sobre suas asas. Ouvi um suspiro, mas não tive forças. Uma aranha dá o bote e ela voa, ficando a decepção de um concerto milenar de rabecas. Como pude viver sem chorar? Apenas canto até os vidros partirem e rasgarem minha roupa. As calças caem, e não mais guardo o mistério. Sou aquilo o que me resta em pé. Os dedos que ninguém irá esquecer. Somente o leproso que soluça enquanto transpõe o vinhedo. Quantas vezes mais terei de suicidar? Quantas vezes mais despejarei minha angústia em palavras mortas? Sinto-me melodramático. Inútil resistir. Inútil acreditar na salvação dos homens. As forcas são belos colares feitos de ferrugem. E, agora vejo sem olhos, a casca que me envolvia se partiu. Eu estava vazio. Como sempre e jamais. Pseudo até em meu caminhar.
(L. F. Calaça | 22/04/2004)
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Domingo, Abril 18, 2004
CÂNCER
Vigia o meu silêncio! Peço-te apenas isso: vigia!
As formigas de asas voltaram. Agora me devoram durante o sono. Há três dias elas depositam em minha garganta fragmentos de rocha. Sinto-me como que sufocado por uma pedra cristalina. Tenho medo de que ela me devore, pois lágrimas podem escorrer de meu silêncio. Lágrimas alheias, de um sofrimento calado. Ainda sou novo, mas é hereditário. Ele se encontrou assim. Eu tenho medo de meu silêncio. Bem pode ser, no entanto, uma impressão apenas. Não são mais apenas formigas. Mosquitos sugam meu sangue. Mosquitos de pernas finas e estômagos dilatados. Pêlos voltam a nascer em meu rosto. Meu cabelo desbotado..., mas ficarei sem ele. É tradição. Às vezes me pergunto o porquê. Mas serei assim tão neurótico quanto Foucault, que eu não conheço. Vigia os meus olhos, que se tornam poços secos e repletos de eco. Emagreço, pois não quero explodir sem lirismo. Meu pescoço ressurgirá, mas há um rochedo atravessado na garganta. Tenho medo de que ele se multiplique e, aos poucos, me transforme novamente em escultura de mármore, entretanto, de dentro para fora.
Vigia o meu sonho! Peço-te apenas isso: vigia!
Torno-me minúsculo, como essas letras incertas. Torno-me garranchos temerosos. A sombra ofusca a música no banheiro. Isso é verdade! Certo como um testamento de câncer. Tento dançar, mas sou hermético e inflexível nas minhas articulações cartilaginosas. Peso sobre a terra, mas as pegadas se apagam na areia da praia. Vigia o meu silêncio e meu último sonho. Há um desejo omisso. Só sentirão o aroma quando me tornar externo, mas já será tarde. Nunca beijei, nem olhei nos olhos. Sou covarde como um elefante. Sinto a dor, mas ainda é aparente. Consumirei minha hipocondria num desejo inalcançável. Serei apenas um esqueleto atrás do armário. Dedico este silêncio a alguém. Não há mensagens codificadas, pois não estamos no tempo de ditadura. E se estivesse, não me importaria o tanto que se espera. Vigia a dor universal dos corpos, que não os dos amantes embalsamados de Verona. Sou antigo, pois que encarnado e sem crença no espiritismo. As formigas constroem sua caverna de pedra e sangue. Haverá festejos e hemoptises. Assim, haverá um olhar e um silêncio velado de morto, que respira sob arranques de violão ou viola menestrel.
Vigia o meu sonho e meu silêncio. Assim te peço que descubras a vida e a dor. Uma só imagem fundida.
(L. F. Calaça | 17/04/2004)
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Sábado, Abril 17, 2004
NÃO ENTENDO
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
(Clarice Lispector)
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Domingo, Abril 11, 2004
DECLARAÇÕES ASSIMÉTRICAS
A porta se abre neste semi-segundo em que os trompetes dizem silêncio. Os coágulos se desprendem e dançam amarrados a um fio incandescente. Um eclipse sobre os olhos e as veias distribuindo seiva elaborada. Um gato persa arranha a parede, arrancando os pedaços de imagens em afresco. Novamente a madrugada e o coração ausente e incerto. Outro qualquer a caminhar pelado como louco experimental. O incesto dos deuses transforma o sangue em vinha branco. Um jardim incendiado por penumbra translúcida e cataclísmica. Bustos de mármore transformados em corpos mutilados, que se arrastam, amam e morrem. E o pêndulo cadente de uma menina no balanço de cordas amarradas à árvore de éter. Mentes asfixiam o quase delírio em lucidez desejada. Olhos sobre os arcos arcaicos e gritos devassando almas. Fantasmas românticos e magmáticos transplantando ilusões para corpos vazios. Imateriais, todavia. Folhas caem e inundam o paraíso, ressequidas. Choros e risos proporcionais ao timbre de voz. Uma estrela deslizando entre nuvens encharcadas de brisa. O homem. Aquele sentado sobre a pedra e os pés cravejados de espinhos. A imagem salta do barranco e se desfaz em cacos de hóstia. Uma rocha arrebentando o universo em fragmentos cósmicos explosivos. A calma é o princípio do desespero. Ninguém nunca viu, mas assim está escrito em silvos de serpente. O átomo traz o intenso espasmo de nervos parassimpáticos. A dor sem reações químico-cinéticas. Incompreensivelmente declaro os dias iniciados entre a ilusão e a falta de idéia. Instintos gravados nas paredes das cavernas árticas. O gelo traz dormência aos dedos, que agarram a hereditariedade dos corpos. O amor como sentido de desequilíbrio trapezista. Quando cair, a porta e os coágulos se arrastarão pelo chão, enquanto o tiro atravessa o claustro. Girinos coaxam no brejo das almas que dormem na cadeira de balanço. Cantam uma canção sem ritmo, compasso, mas impregnada de reflexos metálicos. Essa é uma confissão tranqüila de um atirador de facas. Anestesia geral e perenizante. Perdendo as palavras, que se derramam no frio dérmico dos astros. Silêncio feito mistério de transformação. Ninguém nunca ouviu, pois está escrito nas falanges dos poetas. Embalsamado o sentimento na imperfeição das letras caligrafadas. Assim, somente assim. De outro modo, incompatível. Talvez acordes, mas repetidos mecanicamente em cordas e sopros alheios. Não! Somente assim. Ganho minha carta de alforria e jogo meu corpo nu de um abismo sem tato. Ilusório e descendente.
(L. F. Calaça | 10/04/2004)
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Sábado, Abril 10, 2004
OS IDIOTAS
Seguindo os preceitos do Dogma 95, é contada a história de um grupo de pessoas que fingem ter problemas mentais para conseguir regalias, se divertir e incomodar as pessoas, usando como argumento que é preciso deixar aflorar o lado idiota que existe em cada um e expôr a hipocrisia burguesa. A introvertida Karen conhece o grupo por acaso, mas gosta da idéia de não precisar ser "normal", de não seguir convenções e expectativas, e passa a acompanhar o grupo nos estranhos programas que fazem. Mas será que eles mesmos aceitam as idéias que defendem? Um filme pesado, tanto pelo forma agressiva (apesar de incosistente) como o tema é abordado quanto pela linguagem tosca adotada pelos seguidores do Dogma.
Diretor: Lars von Trier
Elenco: Bodil Jørgensen, Jens Albinus, Anne Louise Hassing,Troels Lyby, Nikolaj Lie Kaas, Henrik Prip, Luis Mesonero, Louise Mieritz, Knud Romer Jorgensen, Katrine Michelsen, Anne-Grethe Bjarup Riis.
Produção: Vibeke Windelov
Roteiro: Lars von Trier
Fotografia: Lars von Trier
Duração: 117 min.
Ano: 1998
País: Dinamarca
Gênero: Comédia
Estúdio: Arte / Danish Broadcasting Corp. / La Sept Cinema / Liberator Prods.
Local de exibição:
Sala Walter da Silveira (Biblioteca Publica do Estado da Bahia)
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Domingo, Abril 04, 2004
VIDRAÇAS METAMÓRFICAS
Enjaulado neste delírio monótono, devoro-me numa sede paranóica de existir. Sangue meu esmagado nos corpos de mosquitos contra a parede. Coágulos enegrecidos. Quinze volumes de capa dura e baixo relevo a pender uma prateleira solitária para fora da atmosfera. Informações desagregadas do tempo e do espaço. Uma tartaruga de farda militar e um chicote. Não sofri as dores da morte, mas tenho traumas e hematomas sobre o corpo sem pêlos. Cera quente de vela de sétimo dia. Rôo minha unha até a carne sangrar. Latejante sensação de vida fragmentada. Ninguém... Minhas últimas palavras apagadas. Faz quase um mês... Não sei o que me tornou assim! Algo esperando por se tornar brochura e letras impressas. Longe de mim e nas estantes empoeiradas. Os Livros de Caetano. Canção do fim dos tempos. Enjaulado, devoro minha juba avermelhada cor de sangue. Um pouco de lucidez! Alguém?! Alguém?! Algo sentado sobre quatro pés de cadeira esculpida em verniz. O silêncio me fez assim, presente e ausente. Às vezes, venenoso e como as violetas clínicas e gemedoras. Segredos enterrados e sem mapa do tesouro. Um besouro negro e cascudo. Depressão pós-parto. Recém-nascido afogado em banheira escaldante. Postas de peixe flutuando no céu cor de mercúrio. Metálico líquido solúvel em lágrima. Todos os versos brancos e sem rumas preciosas. Preciso ser preciso, mas acabo grafado com traço cubista por rolo de parede. A ratoeira sufocando o cheiro amargo de madeira. Alma devorando ameixas frescas em plena Quaresma. O sangue da lança amaldiçoada. Beijarei a tua face num escarro apedrejado. Paralítico a sonhar com metrô supersônico. Um vagão traz o músculo mais duro de ser devorado pelo vazio. Repleto de vinho seco. O som de uma flauta harmonizando os repentes de um violino catatônico. Entro em pânico ao olhar meu sorriso no espelho. Não tenho dentes, lábios ou nariz cartilaginoso. Orelhas crescidas para ouvir melhor o chamado. Que chamado? Agora fujo, segurando as muletas derivadas. Um elefante branco e repleto de carrapatos gigantes sorri com os olhos pequenos. A cabeça de um alfinete. Catacrese. Saio rolando escada acima, como imagem videoclipetica. Em câmera lenta... O mais mortal dos pecados capitais. Amo o som do fio transmitindo coisas cegas. O choque é o mais profundo dos impactos sem corpos físicos. Não! Há corpos sim! Apenas os nossos e os cabelos em pé. Condenados à cadeira elétrica deixam os anéis sem os dedos. Um zumbido. Outro, outro e outro. Nova gota de asas esmagadas e vermelho coagulo. Quando eu sentir, o milagre será real e sem platéia. Repito as idéias até a exaustão. Assim eu me confundo com o anoitecer boreal. A torre de di Chirico é o refúgio de minhas dores temporais. Fios de alta tensão e um pardal eletrocutado. Assim dormem os anjos.
(L. F. Calaça | 02/04/2004)
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Sexta-feira, Abril 02, 2004
POESIA APÓS SILÊNCIO
Escrevo meu delírio suicida,
encontro braços nos cabides
e um silêncio na vidraça.
Como se as coisas fossem fáceis (ou fósseis)
e deixassem de ser coisas abstratas,
só por tornarem a alma ensangüentada.
Nada é tornado que me arrasta
sem mudar de forma, estagnado.
A mente, diamante de vidro e sal.
Algum lugar ou algo decifrado
como mistério afogado em aquário.
Peixinho dourado sem barbatanas...
Matem meu silêncio a facadas,
ou estrangulo o sonho em pesadelo.
Sincrônica dança de crianças.
Uma pedra no sapato apertado.
No homem sem sexo, insensato
ato de gemer de desencanto.
(L. F. Calaça | 02/04/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:32 AM Comments: